

Por nove anos, carreguei um fardo invisível.
Em 2004, alunas da UERGS me convidaram para conhecer a permacultura. Algo despertou em mim — uma fome antiga por viver diferente, por construir mundos sustentáveis. Mas entre despertar e agir existe um abismo chamado medo.
2013. Formamos um coletivo para construir a Morada da Serra. Não era mais eu sozinho — éramos nós.
Começamos convencional, depois vieram telhado verde, captação de chuva, reboco de barro. Eu dizia que faltava gente, que facilitadores custavam caro.
Mentira. O que faltava era clareza. Queríamos "fazer o bem" — um desejo generoso, mas difuso como luz do sol sem lente. E luz sem foco não queima.
Então o Mateus fez o curso com o Carlos Naturalmente em Porto Alegre: Movelaria em bambu.
Ele voltou transformado, e trouxe o fogo. Juntos, criamos os primeiros móveis da casa: um espelho grande,um espelho menor, uma mesa, uma cama -todos de bambu — era linguagem. Resiliente, forte, leve, generoso. Era tudo que a gente buscava com o bambu.
Mas aí veio a pergunta que nos paralisou:
"Permacultura ou bambu?"
O Instituto Pindorama precisava de foco. O mentor da estação semente apresentou uma ideia: produção de moranguinhos. Seguro, comercial, viável. Por meses ficamos indecisos, presos entre o óbvio (moranguinhos) e o chamado (bambu). Permacultura
era vasta, infinita — como escolher uma estrela no céu inteiro? Bambu era específico, arriscado — mas escolhê-lo não seria abandonar a vastidão que amávamos?
A nossa comunidade respondeu: "O carro-chefe não pode ser moranguinho. Tem que ser o galpão de bambu."
Eles viram antes de nós. A comunidade enxergou nossa essência quando ainda estávamos cegos.
Foi o Carlos quem ensinou o Mateus a técnica. Foi o Mateus quem trouxe o conhecimento. A busca e a decisão foi implementada pelo coletivo. Abraçamos o bambu.
Juntos, entendemos: escolher não é perder — é afiar.
A Morada da Serra não morreu. Ela amadureceu. Como o bambu que precisa de anos subterrâneo para explodir em crescimento, nosso propósito estava se enraizando em silêncio. Quando finalmente brotou, tinha nome e corpo: Morada do Bambu.
Veio outro mentor, o Rafael e construímos o tanque de tratamento, em seguida o galpão de bambu.
"Escolhemos profundidade, não amplitude. Escolhemos maestria, não dispersão."
O bambu nos ensinou que a luz do sol, sozinha, apenas aquece. Mas quando passa por uma lente — quando você FOCA — ela incendeia.
Hoje, não fazemos permacultura "em geral". Fazemos permacultura através do bambu. E descobrimos que especializar não é limitar — é potencializar. Cada construção, cada painel,cada fachada, cada muda é uma resposta à pergunta que nos paralisou.
A lição? O mundo não precisa de mais pessoas fazendo tudo mediocremente. Precisa de coletivos que encontraram sua lente — e acenderam fogo juntos.
Nosso fogo tem nome. É verde, oco, flexível e inquebrantável.
É bambu.
Vilmar Bagetti
Fundador, Morada do Bambu
Itaara/RS
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